UMA OUTRA VISÃO PARA O ENVELHECIMENTO

Jornalista Roberta Zampetti trata de forma leve e bem-humorada da importância da perseverança, determinação e atitude positiva após os 60 anos.

Belo Horizonte, novembro de 2017 – É fato: a população está envelhecendo. Mas como lidar com essa evolução que provoca mudanças significativas nas rotinas das famílias e das cidades, que influencia diretamente a economia, assim como a forma como lidamos com a vida e também com a morte? E para quem chega à velhice, como transformar essa mutação natural em uma experiência prazerosa? Em 2015, prestes a chegar aos 60 anos, Roberta Zampetti decidiu mergulhar nesse assunto. Utilizando sua profissão, o jornalismo, como instrumento de autoconhecimento, ela entrevistou centenas de idosos no Brasil e no exterior, estudou teorias e participou de eventos sobre o tema. Essas descobertas e histórias são apresentadas em seu primeiro livro “Sou 60 – Diário de uma jornalista em busca de respostas sobre envelhecimento e a vida” (178 páginas, Editora Libretteria, R$ 30).

Com prefácio do médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, o livro é um convite a enxergar a velhice de forma positiva, como todas as fases da vida. A começar assumindo o uso da palavra “velhice”, em detrimento de termos como “melhor idade”, embora a autora defenda que a maturidade deve ser vista como motivo de orgulho e de transformação. “Quatorze porcento da população brasileira atual possui mais de 60 anos. A expectativa é que em 2050 essa taxa ultrapasse 30%. Estamos vivendo uma revolução da longevidade e do cuidado, que começa a influenciar todos os setores da sociedade: saúde, educação, economia e segurança. Envelhecer é um privilégio e pode ser muito bom. Para isso, precisamos olhar no espelho, nos reconhecer e nos aceitar”, destaca.  

Convite para refletir sobre sua experiência

“Sou 60” traz um convite àqueles que alcançaram a velhice para refletir sobre suas experiências, e, para aqueles que ainda não chegaram a essa fase, a pensar e planejar a velhice. Na obra, os leitores encontrarão depoimentos de profissionais de diversas áreas, além de histórias de idosos que encantam com sua força, perseverança e determinação, no Brasil e no exterior. Além disso, são abordados temas como a convivência entre gerações, sexualidade, moda e beleza, diálogo e perdão, a busca pela espiritualidade, empregabilidade e promoção da saúde.


ENVELHECER E NADA MAIS – Por Roberta Zampetti – www.sou60.com.br

Natália, 84 anos, não percebe os anos passando. “É devagar, as mudanças são lentas”. E como não tem nenhuma doença crônica e não toma nenhum remédio, não sente os efeitos do envelhecimento. Aliás, a terceira ou quarta idade trazem consigo tudo o que fomos e somos na vida. Envelhecemos como vivemos. Quem já ouviu afirmações do tipo: “fulano envelheceu e está ranzinza”. Será que não foi ranzinza a vida toda?  “Quando envelhecemos temos todas as idades em nós, somos a criança que fomos, o jovem, o adulto, a pessoa madura que fomos e hoje estamos envelhecidos.  Tem dia que você acorda com  a criança falando mais forte, tem dia que a gente acorda com a idade que tem”,  me disse a geriatra mineira Karla Giacomin.

Mas quando é que se fica velho? O espelho denuncia? Nem sempre. Uma amiga me contou de uma amiga da mãe dela que tinha mais de 80 anos e que trocou todas as lâmpadas de casa.  A iluminação fraca era para não enxergar o rosto envelhecido. A história é verdadeira e a partir daí a mulher se tornou alvo de chacotas porque não conseguia acertar o batom nos lábios. O que era para enfeitar se tornou piada.

Por que temos medo de envelhecer e tentamos, com as nossas atitudes, negar a velhice? O velho passa a ser o outro e não me reconheço nele. Por que não posso me olhar no espelho –com luz boa, evidente –  e gostar do que vejo?

Precisamos parar de cultuar a juventude. Trata-se de uma etapa da vida. E não a única! A beleza está em todas as idades. Não preciso escutar frases do tipo: “como você deve ter sido bonita quando era jovem” que só servem para fortalecer uma imagem alienada, cristalizada de que bacana é ser jovem. Como isso não é possível, a busca pela juventude eterna torna-se fonte de sofrimento. Pode ser diferente? Precisa ser diferente!

Tem uma frase de uma música do compositor brasileiro Arnaldo Antunes que diz: “a coisa mais moderna é envelhecer”. Verdade. Na década de 1940, a expectativa de vida no Brasil era de pouco mais de quarenta anos.  Meu avô materno morreu aos 36 anos, já o meu avô paterno viveu mais de 90 anos, incomum para a época, mas perdeu filhos. A mortalidade infantil era enorme e hoje diminuiu muito.  A geração pós-segunda guerra é a primeira que experimenta a longevidade por causa dos avanços da medicina, com a descoberta do antibiótico, por exemplo.

Mas, infelizmente, a longevidade é barrada pela morte de adolescentes vítimas de homicídios.  A média é de 10,3 adolescentes assassinados por dia no Brasil, segundo o Mapa da Violência de 2013, estudo coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz. As outras causas foram acidentes de trânsito (13,9%) e suicídios (3,5%). Mortes evitáveis.

Tenho me olhado frequentemente no espelho. Enxergo-me como criança, adolescente, adulta e uma mulher de 62 anos. Enxergo minha mãe, minhas irmãs e primas. Sou tudo isso. Antes insistia em espichar o rosto com as mãos. Agora não mais. Estou em um trabalho árduo de aceitar-me.

Envelhecer é um processo irreversível. Se está vivendo, está envelhecendo o tempo todo, um minuto após o outro, um dia após o outro, embora nossa sociedade reserve à juventude o benefício e à velhice o déficit”, diz o psicanalista francês Jack Messy, no livro “A pessoa idosa não existe”. Com relação ao título do livro, “a expressão  pessoa idosa,  designa uma categoria social e faz desaparecer o sujeito com sua história pessoal, suas particularidades, seu caráter”, diz o autor. Explica ainda  tratar-se mais do que uma simples provocação, tendo em vista que a idade é irrelevante em si para uma abordagem psicanalítica, pois ela não interfere na psique. “Os processos do sistema inconsciente estão fora do tempo, a relação temporal é do âmbito do sistema consciente”, esclarece. No tratamento psicanalítico, estão em jogo os desejos e conclui: “Na circulação da libido não há jovem nem velho, o desejo não tem idade” (p. 10 e 24)

De qualquer forma, Jack Messy diz no livro que “o envelhecimento exprime ao mesmo tempo uma ideia de perda e outra de aquisição”. No livro “Perdas e ganhos”, que li há anos, a escritora gaúcha Lya Luft diz “Pois viver deveria ser – até o último pensamento e o derradeiro olhar – transformar-se.”

No entanto, envelhecer ainda é triste para muita gente.  Uma amiga da rede social de 64 anos chegou a dizer que preferia se tornar “burra” que envelhecer. “Ai, meu Deus. depois de tanta luta ninguém merece… E morrer também deve ser uma dor filha da puta. Nunca vi um defunto sorrindo… Envelhecer é foda, essa é a minha verdade. Alguém me ajuda por favor?” . Fico penando que ela precisa fazer as pazes com o tempo. Afinal, envelhecer faz parte da vida, a outra alternativa – morrer cedo – imagino, não querer…

Resolvi fazer uma enquete no Facebook: a maioria das pessoas não se sente velha. E isso tem explicação para a geriatra Karla Giacomin. “A maioria se sente mais jovem e isso é uma tendência de sobrevivência já que na nossa sociedade ninguém quer ser, reconhecer e parecer que está velho”. Segundo ela, normalmente as pessoas se sentem, se mostram, se vestem, se apresentam com menos idade que têm. Trata-se de uma questão cultural que pode ser modificada, se a gente quiser e com muito trabalho.  E essa percepção só vai mudar quando as pessoas envelhecerem em melhores condições, com mais capacidade de opinar, intervir, de fazer a diferença.  Enquanto isso não acontece, Tália faz sua parte. Ela tem 79 anos e opiniões próprias. Faz atividade física todos os dias, lê no mínimo dois jornais diariamente. “Gosto de ler opiniões diferentes”, comenta. Ela se atualiza e sabe de tudo que acontece no mundo. Estuda na Universidade Aberta para a turma da terceira idade. “Assim tenho oportunidade de descobrir novas dimensões da vida, adquiro novas habilidades, construo novas relações”. E defende que as pessoas devem ter a consciência da idade que têm e que isso não é impedimento para nada. Tália cita uma frase de Mario Quintana que a inspira no dia a dia: “nascer é uma possibilidade, viver é um risco, envelhecer é um privilégio”. Me conta aí: como você está envelhecendo?

Essas e mais histórias em “Sou 60 – Diário de uma jornalista em busca de respostas sobre envelhecimento e a vida” (178 páginas, Editora Libretteria, R$ 30).

 


 

SOBRE A AUTORA

Foto de: Isabela Machado e Flavia Martins Fotografia.


Roberta Zampetti tem 62 anos e é avó de dois meninos. Há mais de 30 anos trabalha com jornalismo, com passagens por diversas emissoras, o que lhe proporcionou conviver com incontáveis pessoas e colecionar histórias. Mineira, valoriza o bom papo e se propõe a levar ideias para o grande público. Há dois anos, prestes a chegar aos 60, ela se incomodou com o seu próprio futuro. Transformou sua crise em oportunidade. Criou um novo programa na TV dedicado ao envelhecimento e passou a se dedicar ao tema. “Sou 60” é seu novo projeto de vida.